Quando pergunto a profissionais de TI o que os preocupa em relação ao futuro, a resposta mais frequente nos últimos dois anos é a mesma: a automação vai substituir o meu trabalho? É uma pergunta honesta, feita por pessoas inteligentes que percebem que o ambiente está mudando. Merece uma resposta honesta, não otimismo genérico.
O que os dados dizem sobre automação em TI
O Fórum Econômico Mundial estima que a automação e a inteligência artificial vão eliminar 85 milhões de empregos globalmente até 2025, enquanto criam 97 milhões de novos. O saldo é positivo em termos absolutos, mas essa média esconde uma realidade setorial importante: os empregos eliminados e os criados não são os mesmos, não requerem as mesmas competências e não estão nas mesmas regiões geográficas.
Em TI especificamente, o McKinsey Global Institute estima que atividades que consomem mais de 70% do tempo de profissionais de nível pleno, como geração de código padrão, documentação, análise de logs, configuração de sistemas e produção de relatórios operacionais, têm alto potencial de automação nos próximos cinco anos.
Isso não significa que esses profissionais vão perder o emprego amanhã. Significa que o valor de mercado de quem faz apenas essas atividades vai cair progressivamente, enquanto o valor de quem faz outras coisas vai subir.
O que a automação já está fazendo na prática
Ferramentas de IA generativa como o GitHub Copilot já reduzem significativamente o tempo necessário para escrever código de qualidade. Plataformas de AIOps automatizam parte relevante do monitoramento e da resposta a alertas de infraestrutura. Ferramentas de geração automática de documentação técnica produzem em minutos o que levava horas.
A IA não vai tomar o seu emprego. Mas um profissional que sabe usar IA vai, se você não se reposicionar a tempo.
O profissional que usa essas ferramentas com competência entrega mais em menos tempo. O profissional que as ignora fica mais lento e mais caro em comparação. Em um mercado que precifica produtividade, essa diferença tem consequências concretas de carreira.
O que permanece genuinamente humano
Existe uma categoria de trabalho que as ferramentas atuais de IA executam mal, ou simplesmente não executam. E essa categoria não é técnica. É relacional e estratégica.
Entender o contexto humano e organizacional de um problema técnico. Traduzir complexidade tecnológica em linguagem que uma diretoria entende e consegue usar para tomar decisões. Mediar conflitos entre áreas que têm objetivos conflitantes em relação a um projeto de tecnologia. Construir confiança com stakeholders que têm histórico de experiências ruins com projetos de TI. Tomar decisões com informação ambígua, em cenários onde não existe resposta tecnicamente correta.
São habilidades de interface, entre humanos, entre tecnologia e negócio, entre risco e oportunidade. Profissionais de TI raramente as desenvolvem de forma deliberada porque o mercado nunca as cobrou com tanta clareza. Isso está mudando.
As competências mais demandadas até 2030
Governança de tecnologia: capacidade de estruturar processos de decisão sobre TI que sejam compreensíveis e utilizáveis pela liderança executiva. Gestão de riscos cibernéticos: entendimento dos frameworks de referência como NIST e ISO 27001 e capacidade de traduzir riscos técnicos em exposição de negócio. Arquitetura de dados e IA: não necessariamente desenvolvimento, mas compreensão suficiente para governar iniciativas de dados e inteligência artificial com propriedade. Comunicação executiva: capacidade de apresentar informações técnicas em formato que subsidia decisão, não que demonstra profundidade técnica.
A transição do técnico para o estratégico
A trajetória mais bem-sucedida que vejo em profissionais de TI experientes não é a especialização técnica crescente. É a ampliação progressiva do escopo de atuação, do operacional para o estratégico, do técnico para o organizacional.
Isso não significa abandonar o conhecimento técnico. Significa utilizá-lo como base para uma contribuição diferente. O profissional que entende profundamente como os sistemas funcionam e também consegue conectar esse entendimento com as prioridades do negócio tem uma proposta de valor que a automação não consegue replicar.
Frameworks como o COBIT e o ITIL oferecem estruturas concretas para desenvolver essa perspectiva mais ampla. Profissionais que investem em formação em governança de TI, gestão de riscos e arquitetura empresarial estão se preparando para o mercado de 2030, não para o de 2015.
O que fazer agora
Para profissionais de TI que querem se posicionar bem para os próximos anos, algumas ações concretas fazem diferença. Aprender a usar ferramentas de IA no próprio trabalho, não apenas saber que elas existem. Investir em formação em governança, riscos e comunicação executiva, além das certificações técnicas. Buscar projetos que envolvam interface com outras áreas do negócio, não apenas projetos internos de TI. E desenvolver a capacidade de contar histórias com dados, traduzindo métricas técnicas em impacto de negócio compreensível.
Em 2030, tecnologia não vai faltar. Ferramentas poderosas estarão disponíveis para qualquer empresa que quiser usá-las. O que vai escassear são profissionais capazes de colocar essa tecnologia a serviço de organizações com discernimento, responsabilidade e visão estratégica.