Por Felipe Pinto Gomes
Escolher Fornecedores sem Apostar no Escuro
Você está prestes a assinar um contrato de R$ 2 milhões com um fornecedor de tecnologia. Sua carreira pode depender desta decisão. A proposta parece sólida no papel, mas você sabe que:
- 68% dos projetos de TI falham por problemas com fornecedores
- O custo real médio excede o orçamento em 40%
- 45% dos executivos de TI já foram demitidos após fracassos de projetos críticos
- Disputas contratuais consomem 30% do tempo de gestores seniores
A questão não é SE você terá problemas com fornecedores, mas QUANDO – e se você terá ferramentas para prevenir, detectar e corrigir antes que seja tarde demais.
Por Que Métodos Tradicionais de Seleção Falham
O Problema das RFPs Tradicionais
Você já viveu este cenário:
- Time elabora RFP de 80 páginas (ninguém lê completamente)
- Recebe propostas de 120 páginas (ninguém entende totalmente)
- Faz apresentações de 3 horas (PowerPoint com promessas bonitas)
- Escolhe baseado em “feeling” + menor preço
- Assina contrato com 200 cláusulas (ninguém revisita)
- Descobre problemas apenas quando é tarde demais
Resultado: Orçamento estourado, prazos perdidos, qualidade comprometida, riscos não mapeados – e você explicando ao CEO o que deu errado.
As 5 Falhas Críticas da Abordagem Tradicional
1. Excesso de Informação, Déficit de Entendimento
- Documentos volumosos que ninguém processa
- Informação crítica perdida em páginas de juridiquês
- Falta de visão integrada do acordo
2. Decisões Baseadas em Percepção, Não em Evidências
- Fornecedor com melhor storytelling vence
- Riscos reais são mascarados por apresentações profissionais
- Capacidade técnica real não é avaliada objetivamente
3. Expectativas Implícitas, Não Explícitas
- Cada lado assume coisas diferentes
- “Óbvio” para você não é óbvio para o fornecedor
- Descoberta tardia de mal-entendidos fundamentais
4. Ausência de Mecanismos de Controle Real
- Status reports genéricos (“tudo bem, no prazo”)
- Falta de métricas objetivas de progresso
- Problemas aparecem apenas em gates críticos
5. Governança Burocrática, Não Efetiva
- Reuniões que não agregam valor
- Processos de escalação que não funcionam
- Ciclos de revisão que ninguém leva a sério
SLA Model Canvas: A Ferramenta Visual que Muda o Jogo. O Que é e Por Que Funciona?
O SLA Model Canvas é uma ferramenta visual de uma página que permite que você e o fornecedor construam juntos, em 4 horas, um acordo completo e transparente que elimina 90% dos problemas típicos de contratação.
Inspirado no Sistema Toyota (eliminação de desperdício) e Design Thinking (colaboração visual), o Canvas organiza todas as dimensões críticas de um contrato tecnológico em 11 blocos interconectados que revelam instantaneamente:
- Se o fornecedor entendeu realmente o que você precisa
- Se ele tem recursos para entrega
- Onde estão os gaps e riscos
- Se o custo faz sentido para o escopo
- Como você controlará a execução
ROI Imediato para o Executivo de TI
Redução de 60% no tempo de seleção:
- Workshop de 4h substitui meses de idas e vindas
- Decisão baseada em evidências visuais, não em intuição
- Alinhamento de expectativas desde o dia 1
Redução de 70% em disputas contratuais:
- Responsabilidades visualmente demarcadas
- Métricas acordadas antes da assinatura
- Processos de escalação testados antes de serem necessários
Aumento de 40% na taxa de sucesso de projetos:
- Riscos identificados e mitigados preventivamente
- Governança efetiva, não burocrática
- Ciclos de revisão que realmente agregam valor
Economia média de 25% em custos totais:
- Custos ocultos revelados antes da contratação
- Trade-offs discutidos com transparência
- Mudanças de escopo gerenciadas proativamente
Os 11 Blocos do Canvas: Guia Executivo
FASE 1: Definição Estratégica (Azul)
Bloco 1: Definição do Serviço
O que é: Descrição clara e concisa do que será entregue
Por que importa: Alinhamento de entendimento básico – se falhar aqui, tudo falha
Red flag: Fornecedor usa jargões técnicos para descrição simples (sinal de falta de clareza)
Exemplo executivo:
X – “Implementação de solução de transformação digital cloud-native com arquitetura serverless”
OK – “Migração de 50 aplicações de data center próprio para AWS, mantendo disponibilidade 99.95% e conformidade SOX”
Bloco 2: Problemas Atuais
O que é: Riscos e dores que justificam o investimento
Por que importa: Conecta tecnologia a impacto no negócio – base para ROI
Red flag: Fornecedor ignora problemas atuais e foca apenas em features (não entendeu o negócio)
Perguntas críticas para o fornecedor:
- Qual o problema #1 que você entendeu que precisamos resolver?
- Qual o maior risco operacional que você identificou?
- O que acontece se não fizermos este projeto?
Bloco 3: Valor para o Negócio
O que é: Impacto mensurável nos objetivos estratégicos da empresa
Por que importa: Justifica investimento para o board – base para business case
Red flag: Benefícios vagos (“melhoria de eficiência”) sem números concretos
FASE 2: Requisitos e Métricas (Verde)
Bloco 4: Requisitos
O que é: Condições que DEVEM ser atendidas para o sucesso do projeto
Por que importa: Base para avaliação objetiva de fornecedores e sucesso do projeto
Red flag: Requisitos vagos (“sistema rápido”) em vez de específicos (“< 200ms de resposta”)
Checklist executivo – Requisitos Não-Funcionais Críticos:
- Disponibilidade: SLA de uptime acordado (ex: 99.95% = 4.4h downtime/ano)
- Performance: Tempos de resposta em diferentes cenários de carga
- Segurança: Certificações obrigatórias (ISO 27001, SOC 2, LGPD)
- Escalabilidade: Capacidade de crescer 10x sem refactoring
- Recuperação: RTO (tempo para recuperar) e RPO (perda de dados aceitável)
- Suporte: Disponibilidade e SLA de resposta (24/7? horário comercial?)
Bloco 5: Métricas/Metas
O que é: Como o sucesso será medido objetivamente
Por que importa: Transforma “achismos” em dados – base para cobrança e penalidades/bônus
Red flag: Fornecedor resiste a métricas específicas (sinal de que não confia na própria capacidade)
Dashboard Executivo de Métricas:
| Métrica | Meta | Criticidade | Penalidade |
|---|---|---|---|
| Uptime | 99.95% | Crítica | 10% do valor mensal por 0.1% abaixo |
| Tempo de resposta (p95) | < 200ms | Alta | 5% do valor mensal se > 300ms |
| Bugs críticos em produção | < 1/mês | Alta | R$ 50K por bug adicional |
| Disponibilidade suporte | 24/7 | Crítica | R$ 20K por hora de atraso |
| Taxa de resolução no 1º contato | > 80% | Média | Sem penalidade, bônus se > 90% |
FASE 3: Implementação e Controle (Laranja)
Bloco 6: Papéis/Responsabilidades/Demarcação
O que é: Quem faz o quê – onde termina a responsabilidade de um e começa a do outro
Por que importa: 80% das disputas contratuais vêm de responsabilidades mal definidas
Red flag: Fornecedor quer responsabilidades amplas mas vagas (“faremos o necessário”)
Matriz RACI Executiva – Atividades Críticas:
| Atividade | Cliente | Fornecedor | Consequência se falhar |
|---|---|---|---|
| Aprovação de arquitetura | A | R | Retrabalho de 2-6 meses |
| Provisionamento de infra | R | C | Bloqueio do projeto |
| Testes de segurança | C | R | Vulnerabilidades em produção |
| Aprovação de go-live | A | C | Downtime não planejado |
| Gestão de incidentes P1 | I | R | Perda de receita/reputação |
| Backup e recovery | A | R | Perda de dados críticos |
Perguntas para eliminar zonas cinzentas:
- Às 3h da manhã de domingo, o sistema cai. Quem é acionado primeiro?
- Descobrimos uma vulnerabilidade crítica. Quem decide se corrigimos agora ou esperamos próxima janela?
- Cliente pede mudança de escopo. Quem aprova? Quem arca com custo?
- Precisamos escalar infraestrutura 5x por causa de campanha de marketing. Quem faz? Quem paga?
Bloco 7: Recursos
O que é: O que cada lado precisa ter para o projeto funcionar
Por que importa: Identifica gaps antes de assinar – evita surpresas de “precisamos contratar X”
Red flag: Fornecedor não consegue detalhar equipe (nomes, senioridade, dedicação)
Due Diligence Executiva – Avaliação de Recursos do Fornecedor:
Recursos Humanos:
- Nomes, currículos e senioridade da equipe alocada
- Percentual de dedicação ao projeto (exclusivo? 50%? compartilhado?)
- Backup para cada papel crítico (e se o arquiteto sair?)
- Taxa de rotatividade da empresa (< 15% é saudável)
- Bench disponível para escalar rapidamente
Recursos Técnicos:
- Infraestrutura própria ou terceirizada?
- Ferramentas de desenvolvimento e gestão de projeto (modernas?)
- Ambientes adequados (dev, QA, staging, produção)
- Ferramentas de monitoramento e observabilidade (você terá acesso?)
Recursos Financeiros:
- Balanço dos últimos 2 anos (empresa saudável?)
- Runway (quantos meses de operação sem novos contratos?)
- Seguros e garantias (cobertura adequada para riscos?)
- Número de clientes (dependência de poucos clientes é risco)
Bloco 8: OLA (Operational Level Agreements)
O que é: Acordos internos da sua empresa para suportar o fornecedor
Por que importa: Fornecedor excelente falha se sua organização não cumpre sua parte
Red flag: Você não consegue garantir prazos de OLAs internos (projeto está condenado)
OLAs Críticos para Garantir Internamente:
| Time Interno | OLA | Prazo | Risco se não cumprir |
|---|---|---|---|
| Infraestrutura | Provisionar ambientes | 48h | Bloqueio de desenvolvimento |
| Segurança | Aprovar arquitetura | 5 dias | Retrabalho ou vulnerabilidades |
| Jurídico | Aprovar contratos | 10 dias | Atraso no kickoff |
| Product Owners | Validar entregas | 3 dias | Acúmulo de débito de validação |
| Procurement | Liberar pagamentos | 5 dias | Fornecedor reduz prioridade |
Ação executiva: Envie lista de OLAs para cada área ANTES de assinar contrato. Confirme comprometimento por escrito.
Bloco 9: Custo
O que é: Estrutura completa de custos – diretos, indiretos, recorrentes, ocultos
Por que importa: Preço da proposta é apenas 60% do custo total real
Red flag: Fornecedor não detalha custos ou resiste a discutir custos indiretos
Perguntas executivas sobre custo:
- O que NÃO está incluído neste preço? (lista de exclusões)
- Em que cenários o custo aumenta? (triggers de custo adicional)
- Qual o custo de mudar de fornecedor no ano 2? (exit cost)
- Há penalidades financeiras por cancelamento antecipado?
Bloco 10: Comunicação/Relatórios/Escalation
O que é: Como você saberá se o projeto está no rumo certo – antes de ser tarde demais
Por que importa: Visibilidade previne surpresas; processo de escalação salva projetos em crise
Red flag: Fornecedor propõe apenas reuniões mensais e relatórios em PDF (opacidade total)
Governança Executiva – Framework Mínimo:
Dashboards em Tempo Real (acesso 24/7):
- Burndown/burnup (progresso real vs planejado)
- Métricas de qualidade (bugs, cobertura de testes)
- Métricas de performance (SLAs em tempo real)
- Consumo de orçamento vs progresso
Reuniões Estruturadas:
| Frequência | Duração | Participantes | Objetivo | Red flag |
|---|---|---|---|---|
| Diário | 15 min | Times técnicos | Desbloquear impedimentos | Não acontece ou vira > 30 min |
| Semanal | 60 min | Gerentes de projeto | Status, riscos, decisões | Sem dados objetivos |
| Mensal | 2h | Diretores | Status executivo, orçamento | Surpresas aparecem aqui |
| Trimestral | 3h | C-level | Avaliação estratégica | Não tem poder de decisão |
Processo de Escalação (Teste antes de precisar):
Nível 1 - Operacional (0-4h)
↓ Problema técnico não resolvido em 4h?
Nível 2 - Tático (4-24h) - Gerentes de Projeto
↓ Risco ao prazo/orçamento/qualidade?
Nível 3 - Estratégico (24h+) - Diretores
↓ Impacto ao negócio ou necessidade de decisão contratual?
Nível 4 - Executivo (Crítico) - C-level + Comitê de Crise
Teste de stress: “Simule um incidente P1 às 2h da manhã. Quanto tempo até chegar à pessoa certa?”
Bloco 11: Ciclo de Revisão
O que é: Quando e como o acordo será revisado e ajustado
Por que importa: Projetos mudam; acordos rígidos levam a conflitos; ciclos de revisão permitem ajustes proativos
Red flag: Fornecedor propõe contrato de 3 anos sem cláusulas de revisão (rigidez excessiva)
Ciclos de Revisão Executiva:
Revisão de Sprint (Quinzenal) – Nível Tático:
- Demo de funcionalidades
- Ajuste de backlog
- Identificação de impedimentos
Revisão de Qualidade (Mensal) – Nível Tático:
- Análise de métricas de SLA
- Débito técnico
- Plano de melhorias
Business Review (Trimestral) – Nível Estratégico:
- Valor entregue vs investimento
- ROI parcial
- Ajustes de escopo/orçamento se necessário
- Renovação ou término antecipado
Revisão de Riscos (Contínua + Formal Trimestral):
- Novos riscos identificados
- Efetividade das mitigações
- Atualização de planos de contingência
Cláusulas executivas de revisão:
- Direito de auditar processos e código trimestralmente
- Ajuste de preços se escopo mudar > 20%
- Opção de término sem penalidade após 12 meses (se insatisfeito)
- Revisão anual de SLAs baseada em dados históricos
Conclusão: Da Intuição à Evidência
A próxima vez que você precisar escolher um fornecedor para um projeto de R$ 2 milhões, você tem uma decisão clara: continuar no caminho tradicional de RFPs intermináveis, propostas volumosas e decisões baseadas em “feeling” – com 68% de chance de problemas graves e 40% de estouro de orçamento – ou investir 4 horas em um workshop colaborativo com o SLA Model Canvas que revela instantaneamente se o fornecedor entendeu seu problema, tem recursos reais para entregar, e onde estão os riscos ocultos. A diferença não está apenas nos números (70% menos disputas, 25% de economia em custos), mas na tranquilidade de tomar decisões baseadas em evidências visuais, não em apresentações bonitas.
Daqui a 6 meses, quando você estiver apresentando os resultados ao board, você quer estar explicando problemas inesperados ou celebrando um projeto entregue no prazo, dentro do orçamento e com total visibilidade desde o dia 1? A diferença entre essas duas realidades não é sorte – é método. O SLA Model Canvas transforma contratos de 200 páginas que ninguém lê em um acordo visual de uma página que todos entendem, acompanham e cumprem. Sua próxima contratação – e sua carreira – agradecem pela mudança de abordagem.
Referência
MUNCINELLI, Gianfranco; PECORA JR., José Eduardo. SLA Model Canvas. XXV Simpósio de Engenharia de Produção (SIMPEP), Bauru/SP, 2018.
